sábado, 11 de março de 2017

Motivação

Motivação é uma criação. Empresas contratam magos motivacionais que fazem intensos bate palminhas e gritos eufóricos para ver se aumentam a produtividade da galera, mas perdem a dimensão de que motivação é algo para ser construído no decorrer do tempo e do trabalho interno e externo da equipe. Uma característica importantíssima da Motivação é a consistência. Se não há a construção da consistência, motivações se dissipam como paçoca em nossa boca. Uma dificuldade imensa para lidar com qualquer doença envolvendo compulsão é a o dissipar de qualquer projeto pessoal na primeira dificuldade: é a dieta que termina na primeira bomba de chocolate, ou o projeto de ficar limpo de drogas que desmorona na primeira decepção amorosa. Criar uma base de resiliência e coragem mental é a base de qualquer projeto de Motivação. Não adianta chamar um palestrante engraçado nem que faça as pessoas saírem do auditório abraçadas jurando que o dia seguinte será diferente. Não será sem a construção de uma base reiterada de capacidade e resiliência diante de situações difíceis e desapontamentos que se monta um projeto. Construir Motivação passa então pela construção de uma base de conhecimento e estabelecimento de projeto, a gestão da energia necessária para o início, o meio e o fim da jornada e a capacidade de descansar e manter o objetivo intacto na sua imaginação até sua conclusão. Já escrevi nesse blog que algo que muito me impressionava nos times dirigidos pelo Bernardinho era a capacidade incrível de manter a ideia da vitória na cabeça até a mesma se materializar. Eu tinha a impressão de que todos tinham gravados com clareza que a bola não cairia no chão até a vitória final. Quem gosta do esporte deve lembrar de vitórias que foram de 30 a 28 e outros placares bizarros demonstrando qual time tinha chegado até a última bola. Motivação não vinha dos berros nem do massacre da camisa polo nas mãos e dentes do técnico, mas da capacidade de manter foco intenso até chegar onde o time queria, a vitória. Ter uma equipe altamente motivada passa pela criação de uma visão compartilhada do Saber, do Fazer e do Ser. A parte mais difícil é do Saber. Muita gente bate palminhas nas palestras motivacionais mas não fazem ideia do que se espera e onde o projeto deve chegar. Falam muito do líder como um motivador, mas o líder deve ser antes de tudo um comunicador: O Que se quer fazer, Como vai ser feito e Onde o projeto deve chegar, em Quanto tempo. Definir, esquadrinhar, comunicar e deixar o grupo achar um meio de, colaborativamente, chegar ao resultado esperado é a verdadeira missão de um líder. Deve ser por isso que Bernardinho tinha uma dieta específica de ficar comendo a gola da polo azul toda vez que o time errava não por ruindade, mas por falta de foco, de intensidade. Intensidade é uma palavra muito na moda na boca de técnicos e comentaristas. Depende muito da energia e da visão compartilhada do time. Bernardinho come já gola porque pode ensaiar, ensinar e se esgoelar na beira da quadra que, no final das contas, são os caras lá dentro que vão resolver, ou não, o jogo. Rogério Ceni tem sido muito paparicado pela mídia por estar criando um time com fluidez de jogo e capacidade ofensiva e criativa, verdadeira vocação, de seu time, o São Paulo. Seu par e patinho feio é o técnico do Corinthians, Fábio Carile, que monta um time não tão bacaninha mas bastante mais consistente, seguindo a cartilha de seu mentor, Tite. Carile está construindo um time pela base, a defesa. Antes de mais nada, ele está montando uma defesa bem posicionada e coordenada, que causa irritação no adversário pela dificuldade de ser penetrada. Depois dessa construção, vem a interação e a interface dos segmentos do time, que vão se articulando até funcionarem organicamente, de maneira integrada. Finalmente, quando o time está encaixado, o bloqueio do adversário, a retomada da bola e a confluência de jogadores que chegam para atacar e concluir torna o time realmente um osso duro de roer. Quem acompanha meus textos sabe que eu sou são-paulino doente e espero estar errado, mas, dos técnicos debutantes, Carile tem uma chance bastante mais razoável de sucesso do que Rogério Ceni. Pela construção do que eu chamo dos três Cs da Motivação: Consistência, Coordenação e Contundência. Para montar um time, um projeto que vingue, que dê certo, é preciso montar a Defesa, a base e a consistência do que se faz com capricho, com repetição e autocorreção, depois o meio de campo, que é a Coordenação das partes envolvidas, a criação de interfaces e associações, além proteção e correção dos erros. Finalmente, o Ataque vem da capacidade de Contundência de trazer resultados importantes e finalizar os processos da melhor forma possível. Esse é o princípio é a sequência que líderes e motivadores trazem para seus grupos. A base do que se constrói aparece nessas três fases de construção de um projeto pessoal ou grupal do quarto C, que é a Conclusão e sucesso, medido pela capacidade de entregar o que se projetou. A Motivação é a capacidade de manter o objetivo com clareza, online na própria visão , enquanto atravessa a floresta de hienas que sempre duvidam e dos mi mi mis dos medrosos de plantão. É por aí que se constrói a Motivação. Pode ser uma construção demorada, mas vale a pena.

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